A propósito da “Magnifica Humanitas” , uma reflexão oportuna de Frederico Lourenço:

Dei por mim a pensar no golpe de génio do Papa no que toca ao contraste proposto na encíclica entre a torre de Babel e o seu contrapólo positivo: Jerusalém reconstruída sob a égide de Neemias.

Jerusalém tem uma longa história. E o Papa não escolheu como metáfora a Jerusalém independente do tempo de David e Salomão, mas sim a Jerusalém dependente e destroçada, reconstruída depois de ter sido destruída pelos babilónios.

O povo judeu que reconstruiu Jerusalém já não era independente: era súbdito do império persa. Os reis persas autorizaram a reconstrução da cidade e do templo, mas eram os suseranos a quem os judeus estavam obrigados a obedecer.

No mundo de hoje, o Papa bem sabe que essa Jerusalém independente de David e Salomão já não é possível. Vivemos como súbditos da suserania de Silicon Valley: somos vassalos dos reis da tecnologia, que reinam pelo wi-fi com que apetrecham o nosso telemóvel e pela nuvem digital sem a qual governos, bancos, hospitais e universidades não funcionam. Qualquer apagão na internet põe-nos de joelhos.

Os reis persas que autorizaram a reconstrução de Jerusalém tinham nomes como Ciro e Dario. Os de hoje chamam-se Musk, Zuckerberg, etc. O império digital já nos reinava no fornecimento de internet e nos controlava nas redes; agora, agravou a nossa vassalagem com um novo ídolo: a IA.

Depois dos reis persas, Jerusalém foi conquistada por Alexandre Magno. Houve várias dinastias de reis gregos. Alguns deles profanaram o templo. Depois vieram os romanos, que destruíram o templo.

O facto de boa vontade dos suseranos persas ter deixado saudades à Jerusalém de épocas posteriores é um grande desafio para o Direito e para a Teologia, sem dúvida. Rezemos para que a IA não caia nas mãos dos romanos.