Venerar gostosamente a Divina Escritura

No Concílio Vaticano II, os padres conciliares sublinharam um antigo princípio, colhido na época patrística: «A Igreja venerou sempre as divinas escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo» (DV 21). Será que a Igreja venerou sempre a Palavra de Deus como o fez para com o Pão e o Vinho consagrados na oração eucarística? Admitindo que outrora o tenha feito, atualmente, isso não é óbvio. Sem julgar intenções, mas avaliando pelas atitudes, não parecerá que se presta maior veneração aos dons eucarísticos do que à Palavra de Deus? Transportamos os vasos eucarísticos com grande piedade; ajoelhamos ao abrir e fechar o sacrário e, também, ao passar diante do tabernáculo; abrimos as palmas das mãos como quem recebe algo precioso na comunhão; usamos a custódia, o incenso e abundância de flores, na adoração e no Lausperene; cobrimo-lo com a umbela e o pálio, nas procissões; entre outras formas de devoção, dentro e fora da celebração do mistério eucarístico. Dispomos, inclusive, de ministros extraordinários para o serviço da comunhão na celebração das missas e levar o Pão da vida aos ausentes, idosos e doentes. Pergunto, porém, em relação à Palavra de Deus: Será que a honramos com gestos equiparáveis de reverência? É verdade que, por vezes, também usamos o incenso e os círios, na proclamação do Evangelho. E os ministros que o proclamam, no final, beijam-no. Escutámo-lo de pé. E, embora raramente, além de proclamado, é cantado. Ainda assim, insisto em perguntar: Cuidaremos dos livros que contêm a Palavra de Deus, da sua corporeidade e do seu serviço com aquela reverência que é devotada ao Corpo do Senhor? Será que a escutamos, com o sentido de presença do Senhor, à cadência de cada palavra lida ou proclamada, como em cada partícula do Pão ou gota de Sangue consagrados O reconhecemos, tomamos e veneramos?

Atendendo a certos comentários feitos por Padres da Igreja, constatamos que tal veneração corresponderia a um princípio assumido, cuja verificação prática, por vezes, admitia dificuldades em relação à veneração da Palavra, devida, por exemplo, à falta de cuidado na sua escuta. Isso mesmo depreendemos, por exemplo, do comentário sobre o Salmo 147, tecido por S. Jerónimo: «Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a minha carne e beber o meu sangue” (João 6, 53), embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha, sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus, que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?»

Sinais de reverência

Enquanto sinais de reverência para com as divinas Escrituras, eles ajudam a reconhecer o seu valor e a sua centralidade na vida da Igreja. Tornam-no mais manifesto. Por exemplo, não faz sentido que, minutos antes da missa, alguém da sacristia vá colocar o Evangeliário sobre o altar, como se fosse mais uma alfaia litúrgica. Podendo fazer-se de outras formas, estou persuadido de que será muito oportuno, pelo menos ao domingo, nas solenidades e nas festas, integrar o Evangeliário na procissão de entrada. No livro que caminha um pouco elevado sobre a cabeça do diácono ou do acólito, a Palavra de Jesus coloca, aqueles que para ele olharem, em ritmo pascal. Ao som do cântico de entrada, ele gera, de antemão, expectativas pelo conteúdo da Palavra que Jesus vai dirigir. Sentimo-nos acompanhados no nosso êxodo e na subida para Jerusalém. Atravessando o corpo da assembleia, sujeito celebrante da ação litúrgica, o livro eleva-se como uma língua de fogo a reacender a memória da aliança entre Deus e o seu povo, na mútua fidelidade. Palavra em movimento, é ela que nos desloca e, curando-nos as paralisias, nos leva a cantar os salmos das nossas subidas à mesa, «quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo» (DV 21). Outra possibilidade, como recordou o pe. Sílvio Couto, tendo por base essa experiência no Sul de Portugal, é a inclusão da Bíblia nas procissões exteriores, pelas estradas e ruas das comunidades.

[Joaquim Félix, padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa]