Tradução da Bíblia fez de Frederico Lourenço “novamente católico praticante”

O tradutor e ensaísta publicou a tradução do Antigo Testamento com os cinco livros do Pentateuco. O sexto volume da Bíblia é o “culminar de mais de uma década de trabalho” que foi “determinante”, diz o tradutor, para o regresso à igreja onde agora confessa se sente “em casa”. A nova empreitada passa por um ensaio sobre os Evangelhos.

Uma década depois de ter começado a traduzir os textos bíblicos, o ensaísta e tradutor Frederico Lourenço é hoje “novamente católico praticante”. “A tradução da Bíblia contribuiu para desmontar os problemas que durante 27 anos me mantiveram longe da Igreja, onde eu agora me sinto em casa”, confessa em entrevista ao programa Ensaio Geral, da Renascença.

O Prémio Pessoa 2016 está agora a publicar o Pentateuco, que reúne os cinco livros do Antigo Testamento – Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. O volume VI da Bíblia (Ed. Quetzal) é o culminar de um longo caminho que o levou em junho a ser “readmitido à Eucaristia”.

Frederico Lourenço considera que os Quatro Evangelhos continuam a ser, para si, o texto de eleição, com uma mensagem “atual no tempo de Jesus”, tal como hoje. Contudo, olha para o livro de Génesis como um “milagre da narração com um cuidado quase cirúrgico de dizer as coisas que são importantes dizer”.

Depois da empreitada de tradução, o professor universitário de Coimbra quer agora dedicar o seu tempo a partilhar com os leitores “um estudo sobre os Evangelhos” que leve as pessoas a verem “o encantamento, o fascínio, a beleza” que encontra nesses textos.

A edição do VI volume da Bíblia é o final de um longo processo de tradução com mais de uma década de trabalho. Chega aqui transformado como tradutor?

Sim, é verdade que traduzir a Bíblia não pode deixar ninguém indiferente. Não é traduzir um texto qualquer. É a Bíblia! E no meu caso comecei a tradução numa atitude muito diferente daquela em que estou agora, quando chego ao final desta viagem.

Não significa que no meio da viagem não tenha encontrado momentos mais difíceis, porque se no início da viagem eu estava distante da Igreja, mas ainda bastante crente, a meio da viagem senti os momentos mais desesperantes de não conseguir, de facto, conciliar aquilo que estava a ler e a traduzir na Bíblia, com aquilo que é a mensagem do Cristianismo, que para mim é aquilo que é mais importante.

Mas acho que esta empresa de ter feito o Pentateuco foi aquilo que resolveu os problemas na minha cabeça. O papão, que era a Bíblia e certas passagens do Antigo Testamento, acabei por conseguir desmontar esse medo e esse papão e acabei por ver que, de facto, aquilo que conta, pelo menos para mim individualmente, é a mensagem de Jesus que está veiculada no Novo Testamento.

Isso, para mim, é o determinante e chego a este ponto, desde há pouco tempo, novamente católico praticante.

Fiz um caminho, em Coimbra, acompanhado pelo padre Nuno Santos, que é o reitor do Seminário Maior, de algumas conversas, até finalmente ter sido readmitido à Eucaristia.

Foi marcante para si esse regresso à Igreja?

Isso aconteceu no domingo da Ascensão, no dia 1 de junho, e foi um dos momentos mais importantes da minha vida.

A tradução da Bíblia contribuiu para desmontar os problemas que durante 27 anos me mantiveram longe da Igreja, onde eu agora me sinto, em casa.

Em que é que é um tradutor diferente daquele que começou no Novo Testamento?

Sou um tradutor diferente, porque no Novo Testamento, sobretudo no primeiro volume com os Quatro Evangelhos, eu traduzi numa atitude de enorme entrega ao texto, diria mesmo de amor pelo texto.

Penso, ainda hoje que os textos que eu mais amo de toda a literatura são os Quatro Evangelhos. Acho que são um milagre que aconteceu na história da humanidade, uma mensagem que era atual no tempo de Jesus, mas é ainda mais atual hoje.

Quando continuei com o Novo Testamento, não vou negar que tive algumas dificuldades com os outros textos. O Novo Testamento tem 27 livros, os quatro livros maravilhosos são os Evangelhos, mas os outros também têm as suas passagens difíceis.

Quando cheguei ao momento dos Profetas do Antigo Testamento, foi também um momento muito empolgante, porque os profetas são grandes poetas também, e eu sou muito sensível à beleza da poesia.

A parte mais difícil veio depois com alguns livros históricos que nos mostram este problema de um povo eleito que Deus escolhe e que autoriza a exterminar os outros povos que contestam aquela terra.

Isso é uma coisa que criou alguns problemas e algum desespero, e foi agora nesta fase final da tradução do Pentateuco que eu consegui perceber que isso tem uma razão histórica, mas que não tem que influenciar a fé, a crença e a confiança na mensagem do Cristianismo.

Este volume abre com uma introdução sua onde explica o contexto desta tradução e alguns detalhes e com os Génesis que diz ser para si o livro mais belo em termos literários, mas também religiosos. Pode explicar?

Sim, o Génesis é no Antigo Testamento talvez o livro mais belo. Há outros que também são lindíssimos, por exemplo os Profetas, os livros Sapienciais ou os primeiros 20 capítulos de Êxodo, também são muito belos do ponto de vista literário.

Mas Génesis é de facto aquele milagre de narração, porque fala de tudo aquilo que é mais profundo para a humanidade e fala com uma arte de narrar que é tão sintética, quer dizer, tem 50 capítulos, é um dos maiores livros da Bíblia, acho que a seguir aos Salmos é o livro maior, mas apesar de tudo, a sensação que temos é que não há uma palavra a mais. A narração é feita com um cuidado quase cirúrgico de dizer as coisas que são importantes dizer.

Pode dar algum exemplo?

O exemplo que gosto de dar sempre é o exemplo do quase sacrifício de Isaac, mas isso é apenas um exemplo num meio de narrações extraordinárias. E, curiosamente, a parte que eu conhecia menos bem de Génesis é a parte final, que é a história de José.

Nunca me tinha dedicado a estudar tão a fundo e fiquei encantado com a beleza daquela história e com a mensagem de perdão de José. Os irmãos quiseram-no matar e venderam-no como escravo, mas ele perdoou aos irmãos. É de facto um exemplo ético que é extraordinário e que nem sempre encontramos, infelizmente, nas personagens do livro de Génesis.

Este trabalho de tradução, tal como em outros seus, tem muitas notas de rodapé. Quer permitir a quem seja crente e não crente perceber melhor o Antigo Testamento?

As notas de rodapé têm o intuito de dar a perspetiva dita crítico-histórica, portanto, não são uma interpretação teológica, nem eu tenho habilitação para isso, não sou teólogo, eu sou apenas um estudioso de línguas antigas e aquilo que me permito fazer é focar a perspetiva crítico-histórica.

É ajudar os leitores a perceberem as épocas em que os livros foram escritos, as condicionantes sobre as quais os livros foram escritos e também dar a ver as muitas contradições e incoerências que os livros têm.

Isso advém do facto de terem sido escritos em épocas diferentes e de constituírem a reunião de materiais diversos que foram reunidos em Jerusalém, em determinada de altura, pensa-se, que, inevitavelmente, e vemos isso até na Ilíada e na Odisseia, estamos sempre a ver incongruências, mas isso faz parte da literatura antiga.

Não podemos achar que estes textos vão ter características diferentes das que seriam normais para a sua época. Portanto, a minha abordagem é de tentar convidar os leitores a ler a Bíblia, o texto como ele é, livre ou à margem de uma interpretação teológica e de ver os problemas que o texto por si próprio levanta.

Mas acha que uma leitura com fé, uma leitura católica, verá algo diferente no texto?

A leitura católica e a leitura com fé vê o grande arco de sentido que o texto tem em termos religiosos e penso que uma coisa não é impeditiva da outra.

A grande pergunta que coloquei a mim próprio quando comecei este trabalho foi: “É possível um biblista crítico-histórico ser ao mesmo tempo católico praticante?” Isso foi uma pergunta que me acompanhou durante estes 10 anos e a resposta que eu dou hoje é “sim”. É perfeitamente possível ser-se biblista crítico-histórico e ser-se católico praticante. Uma coisa não impede a outra.

A interpretação teológica tem a validade da convicção doutrinal, de tudo aquilo que os padres da igreja latinos e gregos ao longo de séculos construíram como interpretação. A interpretação crítico-histórica é uma coisa que surgiu mais a partir do século XIX e tento ver estes livros sob a sua perspetiva histórica.

Mas, uma coisa não é impeditiva da outra e ambas, para mim, têm igual pertinência e significado.

E como é que se explica que um livro que foi feito para o povo judeu é hoje o “best-seller mundial”, um livro que é pensado para a humanidade?

Isso é uma opção da Igreja. Nos primeiros tempos da Igreja, embora tenha havido um grande debate sobre isso, cujo protagonista foi Marcião, no século II, penso eu, depois de Cristo se a escritura judaica devia ou não fazer parte da escritura sagrada cristã?

Marcião era contra isso. Achava que a escritura judaica era demasiado contraditória relativamente à mensagem de Jesus Cristo. Mas a opção dos padres da Igreja foi de integrar a escritura judaica nesse grande arco de sentido teológico que é o cristianismo e hoje em dia, penso que isso é um enriquecimento, porque são textos absolutamente magníficos.

São textos que têm, embora nem sempre, muitas passagens com uma mensagem espiritual absolutamente incomparável. É útil para o cristão, penso eu, tomar em consideração o Antigo Testamento, na sua relação com o Novo Testamento.

Para mim, pessoalmente, o Antigo Testamento continua sempre a ser Jesus Cristo e as suas palavras constituíram o fator determinante para mim de ser um homem de fé ou não. Portanto, não é o Antigo Testamento que fez de mim um homem de fé, mas sim Jesus.

Chegados aqui, e agora, Frederico Lourenço? O que se segue?

Agora vou continuar a estudar estes textos porque os Evangelhos têm o condão de serem relidos como se estivessem a ser lidos pela primeira vez.

Penso que conheço bastante bem o texto grego dos Quatro Evangelhos, mas ainda quero estudá-los mais, não tanto agora a tradução, isso já fiz e não quero ir mais por esse caminho, mas gostaria de um dia escrever um estudo sobre os Evangelhos que levasse as pessoas a ver o encantamento, o fascínio, a beleza que eu encontro nesses textos.

Tudo isso explicado com as minhas palavras, mas que fosse um incentivo para as pessoas encontrarem essa beleza extraordinária que estes quatro textos têm.

A partilha faz parte da missão?

Sim, a partilha faz parte da missão.

A voz individual é importante também, porque uma coisa que tenho pensado muitas vezes, na perspetiva de Deus, nós não somos todos fotocópias uns dos outros.

Cada pessoa é diferente, e se cada pessoa é diferente é porque Deus assim quis, e então a voz individual, o olhar que cada um de nós tem sobre estes textos, é útil de ser partilhado com os demais.

Entrevista à Rádio Renascença