Natal, o anjo e Maria
É das cenas do evangelho mais meditadas na história da espiritualidade e mais representadas pelas artes. É chamada “Anunciação do anjo a Maria”. A sua essência literária e espiritual inspirou centenas de pinturas, especialmente no Renascimento italiano. Na literatura são incontáveis as narrativas que transferiram para a escrita a sua mística. Destaca-se a que o dramaturgo e poeta genial Paul Claudel (regressado à fé católica no dia de Natal de 1886) rescreveu em L’annonce fait à Marie (A anunciação a Maria, na tradução de Sophia de Mello-Breyner Andresen), peça estilizada em linhas dramáticas de uma beleza virginal, sulcada de intenso simbolismo com pendor de iniciação para a vida. Admirando nós a obra artística e poética infinita sobre o relato bíblico, também importa ousar a compreensão da sua intenção originária. Que queria dizer o relato bíblico?
A cena compõe o primeiro quadro mariano do evangelho de Lucas (1,26-38), narração viva carregada de força espiritual, em que Maria aparece à escuta da palavra de Deus. Na realidade, descrevendo a conversação do anjo com a virgem, põe-na em diálogo com a palavra de Deus, representada simbolicamente no mensageiro divino. De facto, a aparição angélica é uma imagem do próprio Deus em estado de comunicação aos humanos; é um símbolo que torna imediatamente presente a Maria a palavra de Deus. O anjo da palavra é realmente um ícone da palavra de Deus.
O diálogo emocionante e avassalador entre os dois protagonistas, o anjo e Maria, quer então ser expressão plástica da palavra de Deus a dirigir-se e a revelar-se a ela, embebida em elevada oração meditativa. O quadro é uma trepidante imagem da virgem Maria, máxima expressão do acolhimento, da atenção permanente, do coração que sabe escutar. Nele, Maria é modelo de escuta e de discernimento cristão, a descobrir a vontade de Deus para si, já «desposada com um homem chamado José». Há pessoas que vão ter com os acontecimentos, mas Maria, confrontada com a palavra de Deus, deixou-se surpreender pelo acontecimento que veio ter com ela: deixou-se surpreender pelo Deus que é sempre Mistério e Palavra.
O enviado/palavra de Deus saúda-a. A sua fé orante “interrogava-se”, a partir da vida, “que significaria aquela saudação”: qual seria o significado daquela palavra divina para o caminho novo a fazer como mãe anunciada? Com efervescência simbólica, a figura do anjo irrompe com uma mensagem super-humana a Maria: visa fazê-la compreender e assumir que o filho que ela «conceberia no seu seio e daria à luz» era e «seria chamado filho de Deus». Maria compreendeu que estava face ao Mistério quando meditava em diálogo com a palavra de Deus («como será isso?»), que a remeteu para a acção do Espírito Santo e para o Alto: «o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo cobrir-te-á com a sua sombra»; nas coisas do Espírito, «para Deus nada é impossível». Assim, Maria a responder ao anjo que escutara é, na realidade, Maria a rezar com a palavra de Deus. E esta não é uma interpretação alegórica. Resulta do teor literário e comparativo do próprio anúncio a Maria, que fazia culminar em si os numerosos anúncios de nascimento prodigioso do Antigo Testamento, desde o de Isaac, Sansão e Samuel até ao do Emanuel no profeta Isaías. É a mesma mensagem, do princípio ao ponto culminante da revelação bíblica, que alimentava a oração de Maria e a sua ponderação do sentido das coisas para ela, valendo-se do alimento e da luz das Escrituras, como faziam os judeus piedosos (2Tim 3,14-17 e 1,5; Act 16,1).
Em termos de linguagem, temos aqui, portanto, um relato bíblico de aparição, fascinante meditação espiritual de estilo narrativo, que iluminava o presente cristão (cerca de 80 anos depois dos factos a que se refere!) com passagens das Escrituras judaicas inspiradas. Era um género literário corrente entre os rabinos do tempo de Jesus e nos autores do Novo Testamento: o sentido a dar à vida presente encontravam-no em textos das Escrituras, pondo-se à escuta da palavra de Deus nelas. Foi o que fez Maria, à procura de sentido transcendente para o que lhe estava a acontecer: «Maria guardava todas estas palavras/acontecimentos, meditando-as no seu coração» (Lc 2,19.51), revolvendo-as e colocando-as em relação entre si e todas elas com o mistério de Deus para si.
Portanto, a narração é figurativa, cheia de imagens, a não alterar com um entendimento à letra, como se o narrado tivesse sucedido tal e qual. A Igreja apostólica usou essa linguagem imagética para suscitar nas comunidades cristãs a fé no mistério que era Jesus: que ele era homem mas também Filho de Deus. Maria à escuta do anjo é Maria a contemplar o seu filho como Filho de Deus. Cruzando dados históricos, geográficos e pessoais, do presente com as sagradas Escrituras, o relato queria mostrar o sentido salvífico dos já antigos acontecimentos relativos ao nascimento de Jesus de Maria, sua mãe. Não se trata de pensar que devemos traduzir a concepção virginal e a divindade de Jesus nos símbolos da narração. É ao contrário. Trata-se de pensar que os símbolos significam a real divindade de Jesus, que só neles se podia exprimir. Não corremos o risco de ler tudo como representação. Lucas teve necessidade de comunicar por meio de representações: como se poderia dizer que Jesus é o Filho de Deus sem ser pela virgindade de Maria? Nem abolimos o ‘escândalo’ da Incarnação. Jesus não é, nem Super-homem nem Extraterrestre. É Deus no homem, é homem-Deus na terra. E Maria, de protagonismo incontornável no Natal, é quem ajuda a desatar estes dois nós. Ela é a mulher real que realmente concebeu no seu ventre o homem real Jesus, que a fé cristã desde sempre contemplou como Filho de Deus.
O que se queria dizer com essa forma de narrar é que Jesus, além da sua inserção humana como elo central na corrente da história do seu povo (significada pela genealogia do evangelho de Lc 3), teve realmente origem em Deus (significada pela narrativa da anunciação a Maria). A voz angélica a anunciar a concepção e o nascimento de Jesus quer dar visibilidade a Deus. Não põe à escuta de história factual. Apela à fé no Mistério. Capta a transcendência divina a vir à imanência humana. Maria não tem aqui função instrumental: é essencial, necessária, para Deus e os humanos terem Jesus. Por ela, o Deus do seu povo tornou-se um Deus que se pode abraçar e beijar, um Deus vivo que se pôde tocar e que pode tocar-nos. Viva o presépio!
Esperança e Natal
O tempo de Advento e de Natal convida a pensar que o suporte definitivo da esperança cristã é Jesus, «nascido de mulher» (Gl 4,4) e aparecido como «filho do homem» e Filho de Deus. Nele a salvação enquanto sentido último da vida, desejada e prometida em esperança no Antigo Testamento, irrompeu como o grande «hoje» de Deus (Lc 4,21). O que até Jesus era futuro, na pessoa dele tornou-se presente definitivo: indulgência/perdão absoluto do pecado, filiação divina de cada pessoa, habitação do Espírito santo no coração de carne do baptizado, etc. Quem nada espera desespera. A esperança tira a pessoa do buraco do desânimo e da monotonia. O desespero é incompatível com a esperança em Jesus, que no seu Natal lhe deu mais conteúdo: a abertura a ele contribui para ‘sermos’ mais, nós que (nos) conhecemos pouco e mal sabemos o que ainda poderemos chegar a conhecer e a ser (1Jo 3,2).
Armindo Vaz é biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica.