Mensagem III aos paroquianos

No dia seguinte ao da minha chegada a Alvor visitei o cemitério. Contemplei fotos, memórias, memoriais, nomes, expressões de saudade e de gratidão. Vi pessoas. Vi rostos de saudade. E vi «para além dos olhos»: pensei nas minhas raízes, agradeci, louvei a Deus e reconheci que somos Hoje porque temos Ontem.

Já lá voltei por mais duas vezes a acompanhar irmãos nossos à sua última morada. E porque «morada eterna», diremos que ali, no cemitério, Deus tem também o seu lugar. Verdadeiramente, o cemitério é lugar de repouso, de descanso, de «dormição», de espera do despertar da manhã de Ressurreição. O cemitério é «descanso na noite» antes do despertar do dia. Não é necrópole, ou seja cidade dos mortos.

Cumprindo a tradição, em 2 de novembro, também voltei ao cemitério para celebrar a Morte e Ressurreição de Jesus, repetida em tantos irmãos e irmãs, que ali dormem no seu descanso para sempre em Deus. Deus de vivos e não de mortos, o nosso Deus. E perguntei e pergunto-me muitas vezes se nós, os cristãos, já pensámos bem na riqueza da nossa fé quando dizemos «creio na ressurreição dos mortos».

É que um pensar cristão acerca da morte, sobretudo tendo em conta o que afirma o apóstolo Paulo, implica considerar a novidade que Deus torna presente quando alguém fecha os olhos para este mundo. João vai dizer-nos que «veremos Deus face a face». Acreditando, Deus faz-Se encontrar de um modo totalmente novo por aquele que o procurou durante a vida. E este encontro, o de dois ansiosos, Deus pelo seu filho e cada um de nós pelo Pai, escapa ao tempo e ao espaço, tornando-se um Hoje eterno. A nossa «insensatez» de humanos leva-nos a descansar nas memórias, no passado, porventura na saudade e no «desgosto» da perda. Mas os defuntos estão em paz, na paz de Deus.

Bela, inovadora, reconfortante e única a perspectiva cristã sobre a morte e o morrer. Como se torna necessário recuperá-la e revalorizá-la! Para que a morte não seja tão «fria» e «seca».

4 de Novembro de 2023

P. Abílio Cardoso

0:00
0:00